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“Gosto da Ana Borges. Não sei como é que vocês dizem aí, mas dizemos que tem grande generosidade, percebes? É daquelas que nunca desiste”

“Gosto da Ana Borges. Não sei como é que vocês dizem aí, mas dizemos que tem grande generosidade, percebes? É daquelas que nunca desiste”Viu os dois jogos de Portugal, o que lhe pareceu a nossa equipa?
Penso que no primeiro jogo podiam ter estado melhor na defesa, fizeram alguns erros defensivos graves, na minha opinião. E o próprio posicionamento defensivo não foi bom. Mas houve uma enorme melhoria nesse aspeto no segundo jogo. Também reparei que é uma equipa que consegue marcar golos bonitos. É uma seleção que está a crescer e é bom para as vossas jogadoras estar numa grande competição como é o Europeu.

Uma estreia numa grande competição acarreta sempre um nervosismo e uma pressão grande, não acha?
Acho que pode ser um choque para elas, porque é difícil saber como abordar grandes jogos como aqueles que tens num Euro, contra seleções com muita experiência. É claro que há sempre pressão mas elas podem aprender muito e esta presença é muito boa para o futuro da seleção portuguesa.

Que jogadoras portuguesas a impressionaram mais?
A vossa lateral direita [fala de Ana Borges]. Tem uma grande agressividade, defende muito e, não sei como é que vocês dizem, mas nós dizemos que tem uma grande generosidade, percebes? Eu gosto muito desse tipo de jogadora, é daquelas que nunca desiste. E também tenho gostado muito da Diana Silva, que joga na frente, porque é muito rápida com a bola no pé, faz a diferença e tem grande habilidade. Acho que foram as duas jogadoras que mais me encheram o olho.

Temos uma Seleção Nacional masculina muito forte, enquanto a nossa equipa feminina só agora se estreia numa grande competição. Do que tem visto de Portugal, como vê o futuro da nossa equipa em termos internacionais?
É claro que a vossa seleção feminina está atrás da masculina, até porque ganharam o Europeu no ano passado. Mas esse é um bom exemplo para seguir e acredito que esta participação no Europeu feminino pode perfeitamente ser aquele primeiro passo para uma nova era da equipa feminina. Espero também que o vosso campeonato nacional continue a evoluir porque quando queres ter uma boa seleção nacional tens de dar importância e apostar no teu campeonato nacional. É importante, por exemplo, manter as jogadoras no país para assim o campeonato ser mais competitivo.

Ana Borges é internacional portuguesa e jogadora do Sporting CP

Ana Borges é internacional portuguesa e jogadora do Sporting CP

Maja Hitij/Getty

A Ana Borges, que referiu, esteve vários anos em Espanha, nos Estados Unidos e, por fim, em Inglaterra, no Chelsea – e agora vai regressar em definitivo a Portugal.
Ah, isso é muito bom. Na minha opinião é muito importante manter as melhores jogadoras no vosso campeonato porque vai ajudar as outras jogadoras a ganhar mais experiência.

Continuando com as estreias, lembra-se da primeira vez que jogou numa grande competição pela seleção francesa?
A minha primeira grande competição também foi um Euro, curiosamente. Na Suécia, em 2013. Lembro-me que não estava no onze inicial. Entrei para jogar alguns minutos e foi complicado porque, por um lado, estava à espera desse momento mas, por outro, tinha um pouco de receio. Precisei de uns quantos minutos para ficar, digamos, normal e a jogar a um nível mais alto. Nestes momentos é importante começar por jogar da forma mais fácil possível e depois sim, com a confiança ganha, jogar o nosso melhor futebol. Por isso sim, lembro-me que não foi muito fácil, mas as minhas colegas que estavam em campo ajudaram muito.

Há seis anos consecutivos que a vitória no Europeu feminino vai para a mesma seleção: a Alemanha. Acredita que este ano esta hegemonia vai ser quebrada?
Na terça-feira comentei o jogo da Alemanha frente à Rússia e continuo a ter a sensação que a Alemanha é uma equipa incrível. Para mim, continua a ter algo mais que as outras equipas, porque tem a experiência e as jogadoras jogam de uma forma muito fluída. Mas também gostei da Inglaterra [próxima adversária de Portugal], vi os dois jogos e para mim pode perfeitamente ser uma surpresa porque marcam muitos golos, o que não é particularmente normal nas competições femininas. E penso que a Holanda também pode surpreender: jogam em casa e isso é como ter algo mais porque os adeptos apoiam muito a equipa. Pode ser uma vantagem. Além de que têm uma atacante muito boa.

Sei que vem de uma família apaixonada por futebol. São eles os responsáveis por se ter tornado futebolista?
O meu pai jogava e aos três, quatro anos eu já assistia a jogos ao vivo. Bem, na verdade não via nada, ia jogar à bola na praia que existia atrás do campo com os meus amigos [risos]. Mas a verdade é que aos 2 ou 3 anos eu já só queria ter uma bola nos pés. Mais tarde os meus pais perguntaram-me “Queres mesmo jogar futebol?” e eu disse “Sim, claro!”. Aos 5 anos já jogava num clube, tinha treinos às quartas-feiras e sábados. Até aos 14 anos joguei com rapazes, só depois fui para uma equipa feminina, porque tinha de ser, e aos 15 anos já jogava numa equipa sénior na 2.ª divisão, no Clairefontaine. E foi assim que tudo começou, primeiro só pelo prazer do desporto. Em França temos muita sorte porque podemos tornar-nos profissionais, mas no início foi mesmo pelo prazer de me divertir.

Sabrina Delannoy retirou-se aos 31 anos

Sabrina Delannoy retirou-se aos 31 anos

ADAM BERRY/GETTY

Era melhor que os rapazes com quem jogava?
[Ri-se] No início, nem por isso. Mas depois era engraçado porque eu era sempre a única rapariga em todo o campeonato e ninguém esperava que eu jogasse bem ou pelo menos tão bem quanto os rapazes. Era sempre engraçado ouvir o pessoal nas bancadas a dizer “olha, têm uma rapariga na equipa, não devem ser nada de especial”. Mas a verdade é que ganhámos o campeonato! Tenho muitas memórias boas desse período e continuo a manter contacto com os rapazes com quem jogava,

Terminou a carreira recentemente, no final da última temporada. Sei que não passou muito tempo mas já sente saudades dos relvados?
[Risos] Humm, ainda não! Estava na expectativa de como iria reagir aqui no Europeu, agora que venho só comentar e não jogar. Mas a verdade é que estou feliz com a minha decisão, que foi muito bem ponderada, durante meses. De momento estou feliz, mas daqui a uns meses nunca se sabe.

Quando se é profissional um atleta tem de ter uma série de cuidados consigo e abdicar de muitas coisas. Agora é tempo de cometer algumas loucuras?
Naaa. Agora o que faço é passar mais tempo com a minha família e amigos, não sou nada do género de fazer coisas loucas [risos]! Sou bastante calma.

E se tivesse de escolher o melhor momento da sua carreira qual seria?
Acho que foi o momento em que marquei aquele que seria o meu último golo da carreira. Foi contra o Barcelona, nas meias-finais da Champions, em pleno Parque dos Príncipes. Eu na altura já sabia que era um dos meus últimos jogos e então toda a minha família estava no estádio. Tenho grandes recordações desse jogo, até porque o Parque dos Príncipes é um lugar mítico. E foi muito especial marcar, lutar para chegar à final e partilhar esse momento com a minha família e também com os adeptos, porque estavam muitos adeptos nesse dia no estádio. Foi uma emoção grande.

Depois, na final, no seu último jogo, o PSG acabou por perder frente ao Lyon. Foi uma despedida agridoce?
Foi um pouco desapontante, até porque estivemos muito próximos de ganhar e uns dias antes tínhamos também perdido a final da Taça de França. Foi difícil mas acabou por não ser assim tão triste porque lutámos muito. A equipa deste ano era fantástica e isso para mim é mais importante.

Além da carreira de futebolista, nos últimos anos tem trabalhado na Fundação PSG.
Trabalhamos em três frentes. Num dos projetos acolhemos e ajudamos jovens entre 18 e 25 anos que não tenham diploma a conseguir um. Temos outro projeto nos arredores de Paris para crianças, em que planeamos uma série de eventos desportivos para elas e trabalhamos também com hospitais pediátricos. Jogadores das nossas três equipas profissionais, de andebol e futebol masculino e feminino vão aos hospitais visitar crianças doentes e levar-lhes alguma alegria por uns minutos.

É um trabalho que a preenche?
É um trabalho que me ensinou muito. Sempre quis fazer algo na área do futebol e sinto-me sempre útil quando estou com os miúdos. Eles ficam felizes só por falarem connosco alguns minutos. Vou todos os dias feliz para o trabalho.

E agora é também comentadora. É só uma experiência ou algo para continuar?
Não sei ainda. Aconteceu tudo muito rápido. Eu nem pensei no assunto. Ligaram-me, perguntaram-me se queria experimentar e eu disse “porque não?” Tem sido fantástico, mas para já o plano é perceber como corre esta competição.

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