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O silêncio faz parte dos homens que têm apenas um objetivo: sobreviver

O silêncio faz parte dos homens que têm apenas um objetivo: sobreviver

Na primária havia um rapaz chamado Pedro e a amizade terá começado numa coincidência: a mesma sala de aula, a mesma carteira, o mesmo nome, coisa que nunca me tinha acontecido antes e a ele também não. Fomos amigos pouquinho tempo, entre fevereiro e maio de 1989, por aí, nos meus primeiros quatro meses de escola portuguesa em Portugal.

Suponho que seja normal: eu vinha de fora e segui para a Preparatória da Póvoa e o Pedro continuou na quarta classe; deixámos de partilhar a sala e a carteira, ficou apenas o nome que dizíamos um ao outro quando nos víamos na rua. Normalmente, eu estava sozinho e ele com a mãe, e a comunicação era mais instintiva e física do que verbal.

Porque o Pedro era especial. Tinha dificuldades motoras graves, precisava de apoiar-se em alguém para andar e da mãe para pôr por palavras aquilo que ele tentava dizer. Ficava frustrado, mas nunca diminuído, e fazia questão de mostrar a força dos braços e das mãos sempre em tensão quando nos agarrava e sacudia com uma genica que nunca percebi de onde vinha num rapaz daquela idade.

Estupidamente, tinha pena do Pedro, e a essa pena vinha agarrada a moral católica e as perguntas igualmente estúpidas: o que é que ele tinha feito para merecer aquilo.

Acontece que ninguém merece nada, porque não há nada; a vida é o que é, e ela pode ser arbitrária, violenta e cínica e andamos cá para sobrevivê-la.

Este talvez seja um dos ângulos possíveis para se escrever sobre “Dunkirk”: o silêncio, a arbitrariedade e a sobrevivência.

Lá irei.

Já devem ter lido algures: “Dunkirk” é um filme de Christopher Nolan sobre um período específico da II Guerra Mundial conhecido como Operação Dínamo, um resgate de 300 mil soldados aliados encurralados pelos nazis na cidade francesa de Dunquerque em maio de 1940. Nessa missão participaram barcos civis que cruzaram o Canal da Mancha, de Dover até França, e levaram os seus rapazes para casa. Os franceses aguentaram o forte, os alemães recuaram não se sabe ainda bem porquê, e muitos milhares de ingleses safaram-se com vida graças à valentia e engenho de alguns compatriotas. Por causa destes, cunhou-se entre eles a expressão “Dunkirk Spirit”, que, diz o Google, representa “estoicismo e determinação perante uma situação difícil ou perigosa”.

Esta é a história real, mas não é a história que Nolan conta. Aliás, Nolan não conta história alguma em “Dunkirk” e é sobretudo isto que a crítica que o critica tem explorado: as personagens não têm profundidade, não há passado, o contexto não existe, tal como não existem os alemães nem tão pouco os franceses.

Aqui são ingleses a tentar salvar-se e ingleses a tentar salvar ingleses, a pé ou a rastejar, a nadar ou a mergulhar, num bombardeiro ou num convés de um barco de recreio, a pilotar Spitfires com motores Rolls-Royce Merlin. São três narrativas diferentes que fluem em três elementos (terra, água e ar) e em três tempos diferentes (uma hora, um dia, uma semana). E são três figuras centrais interpretadas por Tom Hardy, um piloto da RAF que abate o inimigo, por Mark Rylance, o homem do leme do Moonstone, e por Fionn Whitehead, o puto frágil e de olhos nervosos que estica a sua noção de moralidade até ao limite.

A estrutura é complexa, mas não é original. Inevitavelmente, e porque este é um filme de Nolan, todos estes vetores acabariam por confluir e fundir-se, para dar um sentido a todas as questões ou pontas soltas que o filme poderia levantar ou deixar no ar.

Só que o momento “ah, então era isto que ele queria dizer com aquilo”, a epifania, reviravolta, o twist ou seja o que for que lhe queiramos chamar, nunca acontece. Percebe-se, às tantas, o que faz um pai a levar o filho e um amigo deste para o meio do mar, e há uma explicação simples para o rapaz que quase esgota o tempo de “Dunkirk” sem dizer uma palavra – mas é só isto.

Aliás, e já que aqui estamos, uma das críticas dos críticos de Nolan é precisamente a ausência de falas e de diálogos, excluídos, claro, os ditames das patentes aos soldados e o ocasional “home” que Kenneth Branagh lança enquanto a câmara faz um close up no rosto.

Isto é tudo verdade. E eu gosto.

Gosto precisamente por isto. Porque “Dunkirk” não é “Saving Private Ryan”, “Apocalypse Now”, “Platoon” e “Red Thin Line”, dos quais também gostei.

Neste filme, e ao contrário dos outros, não há sargentos e tenentes combalidos, amarrotados e amassados cheios de dúvidas morais que os assaltam a cada tiro que dão ou decisão que tomam; não há monólogos interiores em que alguém questiona sentido da vida no meio da merda que é a guerra; não há heróis, vilões, cobardes, nem feridas nem fraturas expostas, nem um tipo a ajoelhar-se enquanto é baleado pelas costas.

Gostei de “Dunkirk” porque “Dunkirk” é diferente dos outros, uma espécie de ensaio cinematográfico tecnicamente irrepreensível que nos transporta de chofre para o meio da ação, sem roteiros, sejam eles geográficos ou temporais. Há logo uma corrida, um portão que se pula, feridos e mortos na praia, bombardeamentos coreografados com precisão, voos rasantes e picados. E, depois, episódios frequentes de quase afogamento que incomodam quem assiste no cinema.

Porque à fotografia junta-se o sonoplastia e eu, que nunca estive dentro de um barco prestes a afundar-se, acredito que seja isto que se ouça enquanto o aço e o ferro são engolidos e dobrados pelo mar com os gritos mudos de quem suplica por oxigénio e socorro. Eu, que nunca estive dentro de um avião em combate, imagino que aquilo que Tom Hardy vê seja o que um piloto realmente vê quando persegue pelos céus o inimigo. E eu, que nunca estive em guerra alguma, imagino que possa ser assim e que o silêncio faça parte dos homens que têm apenas um objetivo: sobreviver.

Sobreviver à arbitrariedade da bomba que cai uns metros ao lado e não no exato lugar onde se está. Sobreviver ao acaso de uma rajada de disparos que mata todos os elementos de uma patrulha, menos um. Sobreviver ao companheiro de viagem que fica para trás. Sobreviver ao plano de fuga que sai furado uma vez, duas vezes, três vezes, e te faz regressar ao ponto de partida para recomeçar tudo como se fosse a primeira vez, outra vez.

Sobreviver até ao dia seguinte é sempre o melhor dos planos.

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