As vidas de volta querem os portugueses

José E. Cruz

As manifestações do último fim de semana, realizadas em todo o país — Faro e Portimão, no Algarve, — foram uma demonstração do poder da liberdade e da democracia na redenção da esperança. A convocação foi inorgânica, porque desligada de partidos ou sindicatos. A complexidade das redes sociais e das mensagens instantâneas, foi o veículo de mobilização utilizado.

Quanto à participação, trouxe para a rua uma multidão constituída por múltiplas gerações de cidadãos, o que será talvez um traço distintivo da realizada pela “geração à rasca”,  que muito pesou na queda do governo de José Sócrates.

A maioria dos participantes foram cidadãos que normalmente se deixam ficar em observação dos acontecimentos, mas que achou ser hora de dizer basta. Também não pode ser ignorada a presença na manifestação por muitos daqueles que, ano após ano, têm vindo a participar em manifestações contra o rumo da atual política, a convocação das organizações onde se integram.

Assim, juntou-se nas ruas de Portugal cerca de dez por cento da sua população, desmentindo de forma clara a frase que procura desmobilizar as consciências com “isto não vai lá com manifestações”. Mas vai, acima de tudo quando a motivação e o objetivo é tão claro como o de afirmar “Que se lixe a Troika, queremos as nossas vidas”, o que é simples de traduzir. Que nós os portugueses, com quase um milénio de história, podemos bem resolver os nossos problemas internos e que ajuda não é domínio, nem a aceitação de empréstimos é uma submissão. Eles recebem juros, estão a fazer um negócio

O povo português escreveu mais um poema de multidão, montando nas ruas as caravelas do futuro. Está aqui uma recusa que é, ao mesmo tempo, a consciência nacional de um país quase milenar que não quer dissolver-se, mas aceita cooperar, no momento em que os seus governantes, sem enredaram em compromissos, de tal forma que nem sabem como deles sair, chamando-os à razão. Sim, porque ali não se gritou para tomar o poder, mas sim por uma alteração do rumo, da recuperação da esperança e do alargamento da participação democrática.

Estava já por todo o lado a vontade de ter de volta a vida. Para as pessoas não está em causa o tão apregoado “gastar mais que as nossas posses”, nem a configuração de uma existência de luxo ou de facilidades, mas tão só o acesso a bens básicos e essenciais como a educação, a saúde e o emprego, que conformam a vida do Século XXI na Europa que foi e é um esteio de modernidade civilizacional e o Estado português está comprometido a assegurar.

A vida que as pessoas querem é poderem trabalhar com dignidade, amar, cuidar dos filhos, educá-los e descansarem protegidas, depois de uma vida árdua, ajudados por aqueles a quem já ajudaram.

Houve nestas manifestações uma presença muito significativa da mulher, aquela que está na primeira linha de impacto da observação das dificuldades de manutenção das famílias quando estala a crise. O que significa um aumento do potencial de resolução dos problemas, sabe qualquer um que se interessa pela raiz dos movimentos sociais.

Estas manifestações multitudinárias em Lisboa e Porto e de participação muito significativa no resto do País e os princípios que querem ver repostos estão inscritos nos programas da social-democracia, do socialismo e do comunismo, de alguma forma consagrados na Constituição de 1976, com espaço de debate democrático sobre a forma de como os mesmos devem ser aplicados. Só se lhes opõem os que deificam o papel dos mercados supostamente anónimos, que ao contrário do que muitos acolitados afirmam, têm rosto, fortuna e programa político de captura de todos os recursos dos países do sul da Europa, gizado em gabinetes multinacionais.

Outro dos aspetos a relevar, na minha opinião, tem a ver com indicadores do estado do exercício das liberdades democráticas que não são de somenos, num país que felizmente não tem presos políticos. Houve calma e tranquilidade cívica. A polícia, mesmo provocada já fora de contexto, e o governo, num quadro que lhe era extremamente adverso e pode significar a sua queda, não recorreram à repressão.

Vamos ver até que ponto quem tem as mais altas responsabilidades da Nação sabe interpretar este sentir popular. O autismo ou a ignorância do descontentamento é normalmente a causa de divórcios e ruturas.

Na vida pessoal e social.

2012/08/18

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