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Compositor de Portimão tem nota 20 em mestrado

O dia 14 de novembro dificilmente será esquecido por Cristóvão Silva, um portimonense de 47 anos. Foi a data em que defendeu a sua tese de mestrado e que com emoção ouviu da boca do júri composto por cinco das mais conceituadas figuras da música erudita em Portugal, que o trabalho que desenvolveu ao longo do último ano vale nota 20. Uma notícia surpreendente apesar do esforço e dedicação e que foi recebida «de lágrima no olho».

Professor há 20 anos, Cristóvão Silva leciona disciplinas como formação musical, teoria e análise musical e física do som -as quais fazem parte do programa curricular do conservatório nacional – nos cursos do ensino especializado da música da Escola Básica e Secundária da Bemposta, em Portimão.

Completou o bacharelato e licenciatura em composição, e em 2016, pediu um empréstimo de dez mil euros para se aventurar num mestrado em ensino da música na área de composição.

«O mestrado coordenado pelo professor António Pinho Vargas serviu para analisar o ensino especializado da música desde o século XIX até à atualidade, e consiste basicamente, num ciclo de canções infanto-juvenis para coro direcionadas para o ensino especializado da música, como contributo curricular aos programas das várias disciplinas, uma vez que há pouco reportório de autores portugueses», explica. «Há apenas um compositor que escreve com relativa regularidade, e que por isso, esteve na mesa do júri e avaliar a minha tese, o compositor Sérgio Azevedo», evidencia.

nota2015No total, foram criadas ao longo de 12 meses 24 canções em torno de poemas em língua portuguesa, os quais fazem parte do programa curricular do segundo e terceiro ciclo do ensino básico. Por exemplo, algumas poesias de Eugénio Andrade ou de António Gedeão.

O facto de não existirem praticamente canções editadas em português faz com que este novo repertório de 24 temas criado no contexto da tese de mestrado seja «um grande contributo» para o ensino da música especializado em Portugal.

Ao todo são 50 minutos de música, divididos a uma, duas e três vozes. «O grosso da composição aconteceu em dois semestres, isto significa, que produzi uma música por semana». E confidencia que «às vezes, nem sempre temos disposição. Todas as semanas pegava numa poesia e trabalhava-a, o que obrigou a uma grande organização. Todos os dias chegava a casa cansado por isso o que fazia era levantar-me às 5 da madrugada e estudar até às 7 horas, com a cabeça fresca e mais disponibilidade interior. Tinha de ser, não havia outra forma», recorda.

A tese foi acabou por ser classificada como «minuciosa, elegante e muito honesta». «Resulta de um saber de experiência feito, como diria Camões»…

Duas das canções foram até premiadas no âmbito do «II concurso de composição de músicas para crianças» da Associação Portuguesa de Educação Musical e vão ser editadas para a revista que esta instituição publica. Na verdade, o júri da Escola Superior de Música de Lisboa praticamente «obrigou» Cristóvão a editar o seu trabalho e partilhá-lo com o público. E por isso mesmo, as 24 músicas deverão ser publicadas no início do ano de 2017.

Na verdade, estão não é a primeira vez que o professor e compositor portimonense vê uma obra sua publicada. A Juventude Musical Portuguesa deu à estampa o livro «Leituras e editados para a formação musical» dirigido ao ensino especializado da música.

Ensino na Escola da Bemposta foi decisivo

«A Bemposta é a única escola do Estado abaixo do Tejo que é uma escola do ensino especializado de música. É como se fosse um conservatório nacional. A escola surge enquanto uma aposta do Estado em tentar implementar uma espécie de conservatório gratuito no Algarve. Então optou-se em vez de construir um espaço de raiz, por incorporar esta ideia de conservatório no espaço de uma escola. Portanto, é uma escola de ensino regular mas que oferece ensino especializado da música», explica. No total, atualmente existem cinco turmas neste tipo de ensino e Cristóvão tem a seu cargo cerca de 130 alunos, do ensino básico ao secundário.

Na verdade, também os alunos da Bemposta contribuíram e muito «na execução das canções, pois à medida que iam sendo construídas, serviam para aplicar a estratégia de ensino. Não houve só uma idealização de uma proposta curricular como também a sua execução e concretização e análise de resultados. Creio que isto foi um dos pontos que pesou bastante para a nota. Isto, e claro, os 20 anos de experiência no ensino! Depois de tanto tempo a dar aulas, sabemos exatamente o que queremos e o que precisamos».

Source: Compositor de Portimão tem nota 20 em mestrado

Opinião

Novembro, 2020

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