Ganhar a cidadania para o património

José E. Cruz

Felizmente para Vila Real de Santo António, o núcleo histórico pombalino teve, desde muito cedo, muitos e bons defensores. Enumero, para que não se percam no esquecimento do tempo, alguns dos nomes principais daqueles que, sempre bem acolhidos, mas por vezes mal compreendidos, deram parte do melhor do seu esforço para que, no dias de hoje, ainda possamos respirar alguma da realidade do que foi a vila fundada pelo Marquês de Pombal, dentro do espírito do Século das Luzes.

Começo pelo arquitecto Joaquim Cabeça Padrão, o primeiro que por ordem governamental e ainda antes do 25 de Abril iniciou vários estudos sobre o património no território do Algarve, com maior incidência no concelho de Albufeira. Ele fez as primeiras fotografias e levantamento daquilo que ainda existia de pé, no início dos anos setenta. Já faleceu, mas ainda tive oportunidade de trocar com ele alguma palavras e impressões que ajudaram a que também ficasse cativo pela causa do património.

No início dos anos 80, um grupo de intelectuais interessados pelo património, onde se encontravam o dr. Fernando Reis,  o eng.  José Horta Correia, o arq. João Horta e o historiador Hugo Cavaco, reuniu-se em torno da revista ADIPACNA, tendo realizado um seminário, que contribuiu para o lançamento da ideia da necessidade de classificação do núcleo pombalino. Esta ideia foi acolhida pela câmara municipal, então presidida por Alfredo Graça e onde o vereador do pelouro da cultura e do urbanismo era António José Martins que viria a ser mais tarde também presidente da câmara municipal.

António Murta e Luís Gomes também desencardearam acções com o objectivo de levar à lei a classificação do núcleo histórico pombalino. O arq. Rui Figueiras, um jovem precocemente ceifado pela morte também viria a ter um papel determinante neste processo, em especial na recuperação do Torreão Sul.

Pode afirmar-se que, mais pressão, menos pressão, mais cedência menos cedência, todos os que em Vila Real de Santo António se interessavam pelas questões do património vieram a ter a sua oportunidade de participar na defesa do património pombalino e nalgumas ações para a sua recuperação, embora, as verbas fossem sempre curtas.

Deve também figurar nos registos que o projecto de recuperação do edifício da câmara municipal e outros da zona histórica, elaborado pelo arquitecto João Horta, ainda sob a responsabilidade da Câmara municipal socialista  entregue para ser apoiado pelos fundos do Interreg II já pela câmara CDU presidida por António José, nunca chegou a ser posto em prática porque as verbas daquele programa “sumiram” nas opções de responsáveis regionais para outros projetos muito longe da fronteira, cujas assimetrias se procuravam corrigir.

E chegamos hoje, depois de vários estudos internacionais, diversos seminários e congressos, ao dia da realização de mais uma iniciativa meritória de discussão do património do iluminismo, onde o núcleo histórico da nossa cidade se enquadra.

Aprendi, pela participação nestes eventos, a tirar uma constatação que gostaria de exprimir, no sentido de se tentar compreender alguma distanciação por parte das populações locais, deste tipo de atitude, identificada como exercício de elites ou, pior, com sorvedouros de dinheiro ou empecilhos para a construção de edifícios modernos.

É que, são os especialistas que o dizem, a beleza o e valor do património de Vila Real de Santo António, não reside nos seus edifícios, de arquitetura pobre, destinados a residências e a apoios à fabricação e conservação do pescado. Reside sim, na monumentalidade da sua retícula, do retângulo perfeito, na relação do obelisco e da praça com os eixos dos poderes temporal e espiritual, tendo por centro o rei absoluto. E, também, no facto de ter sido em Vila Real de Santo António que se terá ido mais longe, a nível mundial, na implantação da ideia do urbanismo iluminista.

E é isto que tem de ser explicado às pessoas, para que a defesa passe para a cidadania e deixe de ser apenas objecto e louváveis e bem vindos estudos académicos.

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