Guadiana Opinião

Guadiana o mal amado

José Estêvão Cruz

Dos três grandes rios portugueses, o Guadiana é o mal amado pela governação nacional. Talvez porque nunca na sua foz se formou uma cidade com a dimensão de Lisboa ou Porto ou até mesmo como em outros rios portugueses, mais privilegiados com portos e barras bem tratadas.

Talvez porque o país só descobriu o Algarve depois de um calvário de reivindicações para o afirmarem no contexto nacional e se descobriu que estava aqui uma galinha de ovos de ouro, donde se tira muito e se coloca muito pouco. Ainda talvez, porque nos fiamos sempre dos outros e descansámos no trabalho dos ingleses da Mason & Barry que exploravam o cobre de S. Domingos e, à pala da necessidade de escoar o minério, mantinham a barra aberta com a draga Mowe.

Quando os ingleses se retiraram e a draga partiu, quando as barragens, os açudes e as secas cada vez mais frequentes, devido à desertificação acelerada, começaram a enfraquecer o caudal, a barra do Guadiana assoreou irremediavelmente.

Foi um novo calvário para a frota de pesca de dezenas de barcos, em Vila Real de Santo António e Ayamonte, que esperavam horas na barra, para a entrada do peixe que apodrecia e perdia qualidade de venda e de valor e ameaçava até a qualidade da conserva. Até que os poderes construíram os molhes (ver Convénio Luso.Espanhol e Caixa, publicados à parte), beliscados com as vozes fortes das populações, dos armadores e pela tragédia de naufrágios com a morte de dezenas de pescadores, à vista da terra firme. E fez-se o molhe. Mal feito, dizem uns. Incompleto, dizem outros.

A situação, nos dias de hoje, continua um pouco como dantes, a ser de preocupação permanente, a causar prejuízos à cada vez mais ausente frota de pesca, à frota de recreio, às perspectivas que se abrem para a navegação de cruzeiros. Continua a ser uma das piores barras do Algarve.

Em 1978, sob a presidência do socialista António Reis, a barra foi reaberta por uma draga, mas, em terra, os empresários não se movimentaram com a ligeireza suficiente para aproveitar a obra pública, o desinteresse instalou-se e a barra tornou a assorear.

Os diversos executivos municipais de Vila Real de Santo António, de todas as forças políticas, tem reclamado junto dos governos, há unanimidade política em torno da questão a reabertura da barra, mas como já se disse o Guadiana é mal amado, talvez porque dê muita “chatisse” conversar com os espanhóis, talvez porque estes estão mais interessados no seu porto de Huelva, agora com grandes navios de cruzeiro para as Canárias.

Os molhes da barra

Os molhes da barra foram construídos entre 1972 e 1974. O molhe poente tem cerca de 2.000 metros. O molhe nascente, submerso, tem cerca de 1.300 metros. O objectivo foi a canalização da corrente.

No seu estudo, disponível na Internet no endereço http://w3.ualg.pt/~jdias/GESTLIT/papers/03_RecAD2.pdf, “Dependência Entre Bacias Hidrográficas, Zonas Costeiras e Impactes de Actividades Antrópicas: O Caso do Guadiana (PORTUGAL)“, João M. A. Dias, Ramon Gonzalez e Óscar Ferreira, afirmam que os molhes provocaram estreitamento da secção do canal.

Junto à barra, este passou de cerca de um quilómetro em 1969, para 500 metros, em 1999, traduzindo-se num aumento da competência do fluxo de saída e, consequentemente, no depósito de areias sobre o corpo lodoso adjacente que existe na plataforma continental.

O molhe poente provocou a interrupção da deriva litoral, cuja resultante anual é de ocidente para oriente). De imediato se começaram a acumular, contra o molhe poente, grandes quantidades de areias. No sentido de diminuir as taxas de acumulação, construiu-se mesmo, a cerca de 1,2 km para poente, um esporão (para retenção de areias) com cerca de 300 metros, (Dias, 1988).

Verificou-se que, até 1980, o esporão aludido reteve praticamente toda a deriva litoral, estimada em cerca de 180.000 m3/ano (Gonzalez et al., 2001), agravando bastante os problemas de erosão costeira no litoral espanhol, a oriente da foz do Guadiana.

Em meados da década de 80, o molhe aludido ficou colmatado, começando a areia a transpor, em quantidades significativas, a cabeça do molhe, indo alimentar, de alguma forma, o litoral a oriente, o que se traduziu num amortecimento da erosão costeira aí existente (Gonzalez et al., 2001).

O Plano de Ordenamento da Orla Costeira do Sotavento do Algarve prevê a desactivação deste molhe mais pequeno, situado em frente do sítio dos Três Pauzinhos.

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