Opinião

O que é  trabalho, o que é diversão

O escritor americano Mark Twain, no livro “As Aventuras de Tom Sawyer”, escreveu um conto que titulou “O caiador glorioso”.  

Quando vi turistas encantados a pisar uvas numa exploração vinícola do norte do país, logo me voltou à memória este conto. A proprietária estava contente com este fluxo de estrangeiros, em aumento quase exponencial. Eles até participaram na vindima, dizia feliz. Faço uma livre sinopse do conto:

Numa manhã de sábado, em pleno estio, a tia de Tom mandou-o caiar a cerca. Ele apareceu depois, no passeio junto da casa, com um balde e um pincel de cabo comprido, relata o autor. “Olhou para a vedação e toda a alegria do seu espírito deu lugar à mais profunda melancolia.Eram trinta jardas de tapume com dois ou três metros de altura”. Após pintar a primeira tábua, parou para refletir. A tarefa era prolongada e estava à vista que perderia a brincadeira com os companheiros. Foi então que a abordou de forma diferente. Parou a olhar para longe como se estivesse a fazer uma coisa que tinha de ser tão bem feita que “em mil rapazes, talvez até dois mil, não haveria outro que o fizesse como deve ser”.

De tal forma foi convincente que, todos os amigos que ali passaram, quiseram experimentar, mediante o pagamento com berlindes, berimbau e outras bugigangas de valor entre os miúdos. A meio da tarde, com estes ganhos e sem esforço, as trinta jardas de cerca estavam caiadas. O tema deste conto é uma reflexão sobre o que é o trabalho.

Vi os rostos prazenteiros dos turistas que participavam na pisa da uva e o ar feliz dos proprietários do resort ou quinta que os recebe, cada vez em maior número. Até a anunciaram radiantes a possível participação dos visitantes no trabalho nas vindimas. Para as pessoas que, nessas circunstâncias, participam e pagam, ao mesmo tempo que se extasiam com a paisagem do Douro, não se poderá falar de trabalho. Quem pisa a uva com tanto prazer, não tem a consciência de estar a amalgamar vários postos de trabalho sob os pés, a acreditar que este trabalho, só realizado por humanos é que tem valor acrescentado.

Como vivemos em tempos em que muitos se vangloriam da arte da fuga aos impostos, em humilhação daqueles que os pagam religiosamente e em prejuízo da comunidade, não faltará por aí quem entenda este expediente por “bem visto”. 

Depois, lembrei-me da mensagem do filme “Matrix”, no qual as máquinas, que dominaram os homens, tinham-lhes colocado a correr na mente um ambiente virtual, para imaginarem que se estavam a movimentar no melhor dos mundos e lhes sugarem a electricidade produzida a mais pelo deleite.

Embora seja clássico dizer que trabalho é todo o esforço penoso que realizamos, cuidado com estes expedientes.

Tom recebeu berlindes e bugigangas, mas a exploração dos humanos segue cada vez por mais tortuosos caminhos.

Opinião

Dezembro, 2020

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