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Opinião

Acerca de escolhas e de conflitos

Todos os dias e a toda a hora, a inevitável dinâmica da vida, a nossa e a dos outros com quem interagimos, confronta-nos com a necessidade de fazer escolhas: umas inofensivas, outras mais complicadas!

Crónicas Avulsas


Todos os dias e a toda a hora, a inevitável dinâmica da vida, a nossa e a dos outros com quem interagimos, confronta-nos com a necessidade de fazer escolhas: umas inofensivas, outras mais complicadas!

Um exemplo simples: querendo nós perder algum do nosso peso em excesso, questionarmo-nos se cedemos à gulodice e comemos aquele apetitoso pastel-de-nata que grita por nós, acabadinho de sair do forno, de mais do que certo saborosíssimo recheio e de massa estaladiça ou, calçamos as sapatilhas e vamos explorar um ainda desconhecido trilho que atravessa algumas pitorescas aldeias da serra?

Ao termos de escolher entre o pastel-de-nata ou a caminhada, estamos perante um conflito interior que temos de saber gerir. Haverá quem ceda ao pastel-de-nata, todavia, muitos outros calçarão as sapatilhas. Não há respostas certas de aplicação universal. As opções de cada um dependem da sua própria realidade: alguns terão difícil relação com a balança por serem irremediavelmente gulosos, outros, por problemas de saúde que lhes descontrola o funcionamento da tiróide. Com o avançar da idade e o acumular das gordurinhas que tendencialmente se distribuem de forma indiscreta, expondo proeminências inestéticas e indesejadas, teremos maior capacidade de resistir ao pastel mas, também menor mobilidade.

O que importa reter é que a satisfação de um dos dois estímulos coincidentes em termos temporais tem como consequência a insatisfação do outro; esta circunstância cria alguma frustração mas, a caminhada da vida faz-se de escolhas.

Este mecanismo que sustenta o processo das escolhas pessoais de cada um de nós perante os impulsos que a vida nos oferece, se o alargarmos a quem exerce funções de liderança, pessoa que deverá estar atenta às relações que se estabelecem entre diferentes indivíduos unidos por uma estrutura ou projecto comum, para que ele seja viável e tenha êxito, teremos de ter em consideração outras nuances.
Desde logo, conciliar diferentes escalas de valores morais e éticos, assim como diferentes interpretações do mundo e da vida, diferentes “visões do mundo” próprias de diversas etnias ou origens culturais de quem faz parte da equipa liderada, considerando-as como contribuições de cada um para o fortalecimento do grupo.

Caso não o faça, estarão criadas condições para gerar conflito entre os membros da equipa que lidera, o chamado conflito interpessoal, condenando o projecto comum a um eventual fracasso.

Se um líder tiver as competências necessárias para gerir relações que resultam de diferentes sensibilidades, tem todas as condições para o sucesso e formar uma boa equipa: seja ela no plano desportivo, profissional ou, inclusivamente, na liderança de um país.

Este texto foi escrito no rescaldo da inconcebível e inaceitável invasão do Capitólio, nos Estados Unidos da América, protagonizada por uma turba de gente fragilizada mentalmente por militâncias em diferentes organizações extremistas, religiosas e políticas, peões manipulados miseravelmente por um péssimo líder.

Falo de um líder amoral, vaidoso e narcisista: alguém que acima de tudo quer cumprir a sua agenda pessoal; alguém que se quer esconder na função que exerce por pura cobardia; alguém que insiste em viver uma realidade alternativa; alguém que não reconhece a sua derrota democrática clara nas urnas por manifesta falta de estatura moral e ética; alguém que escolhe ser um miserável criador de ódios que dividem e lançam umas pessoas contra outras.

O que une uma sociedade são as suas regras de funcionamento, criadas pelos seus representantes e aceites por todos, esse é o cimento que consolida todo o edifício: um líder suscitar o incumprimento dessas mesmas regras porque o resultado de uma eleição não lhe é favorável, significa que esse líder não tem condições para continuar a liderar.

Este inqualificável líder com lugar garantido na história pelos piores motivos, que deveria assumir ser um símbolo unificador estruturante de uma nação tão importante à escala global, com a sua acção nefasta está a criar condições para um terceiro nível de divergência: o conflito intergrupal!

Henrique Bonança
VRSA – 9 de Janeiro de 2021

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Henrique Bonança

Henrique Bonança

Henrique Bonança, é vila-realense, tem 59 anos de idade, uma filha e um filho, uma neta e um neto, profissional de seguros na pré-reforma, técnico comercial na Companhia de Seguros Império e técnico de formação na Companhia de Seguros Fidelidade, em áreas técnicas de seguros ou de vendas e área comportamental.
O gosto pela leitura e pela escrita surgiu muito precocemente, todavia, só a partir de 2009 algum do trabalho de escrita realizado é partilhado com a edição de um livro patrocinado pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António: “Peidinhos-de-Velha”; seguindo-se a publicação de dois outros em pequeníssimas edições de autor através da Editora do Guadiana: “O Bando do Largo da Bica e a Invasão das Lagartas” (2010) e o “Bando do Largo da Bica e o Resgate do Guardião Branco” (2011).
A partir de finais de 2017 foi posto em marcha um projecto pessoal de publicação e partilha no perfil particular de “Facebook” de crónicas que abordam diferentes temáticas, como sejam: Crónicas Avulsas, Crónicas do Largo da Bica, Crónicas de Um Tempo Já Vivido, Crónicas de Garfo e Faca, Crónicas de um Recruta e Crónicas de Angola, que representam um já expressivo número de cerca de 140 textos divulgados a ritmo semanal, salvo algumas excepções pontuais.
Com a aceitação imediata do simpático e honroso convite do responsável do guadianadigital.com para colaborar com o “site”, inicia-se agora uma relação que se espera perdure no tempo, correspondendo por inteiro às expectativas e, deste modo, agradar aos leitores e seguidores deste jornal digital. Henrique Bonança VRSA – 31 de Dezembro de 2010